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Teresa Abraços, embaixadora da Plataforma Essência, planta a sementa do Surf em São Tomé

Captura de ecrã 2015-05-10, às 14.51.52Para a ex-campeã nacional Teresa Abraços, o surf há muito deixou de ser meramente uma fonte lúdica. Acabada de fechar uma parceria que lhe vai permitir deslocar-se a São Tomé e Príncipe com a regularidade que deseja, a surfista de São João do Estoril quer pôr as raparigas desta pequena ilha do Atlântico a desfrutar dos desportos de ondas.

2009 não foi um ano como outro qualquer na vida de Teresa Abraços. Foi o ano em que viajou pela primeira vez para São Tomé e Príncipe, uma ex-colónia portuguesa localizada a cerca de 300 km da costa Ocidental africana, em pleno Atlântico, mesmo na linha do Equador. Na principal ilha do arquipélago, de dimensões ligeiramente superiores às da ilha da Madeira, Teresa foi surpreendida pela quantidade de crianças locais que foi encontrar na praia de Santana, nos arredores da capital, a fazerem “carreirinhas” nas espumas com os corpos debruçados sobre pequenas tábuas de madeira e pedaços de troncos de árvores. “Imediatamente fez-se um click na minha cabeça”, diz a surfista de São João do Estoril. E se aquelas crianças tivessem acesso a pranchas de verdade, feitas de foam e fibra de vidro? Até onde poderia levá-las a sua curiosidade natural pelo ato de correr ondas?

Não por falta de vontade, a segunda viagem a São Tomé só veio a proporcionar-se anos mais tarde, em março 2014. E mais uma vez Teresa ficou fascinada: “Ao fim de cinco anos já havia comunidades relativamente fortes de surfistas, tanto em Santana, nos arredores de São Tomé (capital), como no sul do país, na região de Porto Alegre, que são justamente as áreas onde há melhores ondas. Alguns dos miúdos que tinha visto a brincar nas ondas com tábuas e troncos tinham agora as suas pranchas, deixadas por alguns viajantes mas sobretudo oferecidas por um grupo de portugueses que vivem e trabalham em São Tomé – o Paulo Pichel, o Miguel Ribeiro e o Pedro Almeida – que têm feito um excelente trabalho de dinamização do surf na ilha, inclusive organizando um campeonato nacional que este ano vai para a sua 3ª edição”, observa a ex-campeã nacional.

“No dia seguinte, quando começámos a treinar os take-offs na areia, ela imediatamente fez o movimento perfeito. Depois confessou-me que tinha estado a treinar no chão de casa com uma tábua de madeira.”

Depois de constatar, com iguais doses de surpresa e satisfação, o quanto o surf tinha evoluído naquela pequena ilha do Atlântico, o desejo de retribuir a hospitalidade e simpatia com que a comunidade local a recebera desde o primeiro momento levou Teresa a focar as suas energias numa nova missão: promover o surf feminino em São Tomé e Príncipe.

Logo que se chega a São Tomé, o visitante constata imediatamente que a população são-tomense é muito jovem (70% desta tem idade inferior a 20 anos). Nos últimos anos têm-se registado desenvolvimentos assinaláveis na educação e na disponibilização de bens essenciais como água potável, saneamento básico e saúde, mas ainda há muito por fazer nestes campos.

Embora São Tomé seja lindíssimo e as pessoas simpáticas e generosas, a vida é dura, já que uma boa parte das famílias vivem de agricultura e pesca de subsistência. E ainda mais para as mulheres. O normal é vermos mulheres e miúdas pequenas a carregarem alguidares com loiça e roupa para lavarem nos rios. Andam vários quilómetros para realizarem tarefas do dia-a-dia. “Quando chego à praia para surfar, geralmente o que vejo são mulheres e miúdas à beira dos riachos a lavar roupa e os miúdos a brincar com tábuas e troncos de madeira ou pranchas de surf velhas. Nunca encontro uma miúda dentro de água, nem sequer a tomar banho.”

Se os rapazes se divertem nas ondas, as raparigas também podem fazê-lo, e é aqui que Teresa acha que pode fazer a diferença – “Só o facto de me verem entrar na água com uma prancha já é um princípio. Vou despertando alguma curiosidade. Não é fácil desviares uma miúda para outras tarefas que não aquelas para as quais parecem estar predestinadas”, analisa.

“Nós, surfistas, somos uns privilegiados! O surf é uma excelente ferramenta de interação com as populações locais. Basta ter vontade e ideias!”

No entanto, Teresa parece ter encontrado a sua aposta segura. Jélsia, a irmã mais nova de Jéjé, o campeão nacional de São Tomé e unanimemente reconhecido como o melhor surfista do país, parece ter ficado irreversivelmente contagiada com a magia do surf, depois de a surfista portuguesa a ter iniciado na modalidade durante a sua última estadia, em abril deste ano. “Fui buscá-la a casa praticamente todos os dias para levá-la à praia. No primeiro dia, ela espontaneamente ergueu-se com os dois pés paralelos virados para o nose da prancha. Expliquei-lhe que os pés tinham de estar afastados, numa posição lateral. No dia seguinte, quando fui buscá-la, já estava de licra vestida à porta de casa, à minha espera, tal era o entusiasmo! Quando chegámos à praia e começámos a treinar o take-off na areia, ela imediatamente fez a posição perfeita. Depois confessou-me que tinha estado a treinar no chão de casa com uma tábua de madeira”, conta.

Em junho, Teresa estará de volta a São Tomé, para ajudar na organização da 3ª edição do campeonato nacional mas também para rever e continuar a acompanhar Jélsia dentro de água. “Já estou em pulgas! Sei que ela continua a treinar. Recomendei ao irmão que a ajudasse mas tenho muitas dúvidas… (risos) Ele quer é ir lá para fora apanhar as suas ondas.” Na bagagem, como prémios para os surfistas que mais se destacarem no campeonato, leva material de surf e peças de roupa gentilmente cedidos pela Surf Soft, Lightning Bolt, Plataforma Essência (Ericeira Surf & Skate) e Surf For Life – Academia Desp. Aquáticos, bem como por alguns dos surfistas portugueses que disputam a Liga MOCHE, de que é exemplo Luís Perloiro e a sua família. “Também num sentido didático, tenho apelado à generosidade da comunidade de surfistas portugueses, já que acho importante que eles percebam que, se hoje em dia se consegue facilmente ter acesso a todo o tipo de material em Portugal, em países como São Tomé e Príncipe não é nada assim”.

A médio/longo prazo, o objetivo é continuar a trabalhar em prol do desenvolvimento do surf são-tomense, com especial enfoque no feminino. Mulher de causas, Teresa Abraços deixou de encontrar nas viagens meramente lúdicas o alimento suficiente para o seu espírito inquieto. “Estas viagens fazem mais sentido se tiverem uma componente de solidariedade, por mais pequena que seja.” Em São Tomé e Príncipe, encontrou um desafio à altura da sua generosidade, e depois de ter firmado uma parceria com o grupo HBD, proprietário de duas unidades hoteleiras de luxo no arquipélago (uma em S.Tomé e outra na ilha do Príncipe), vai poder deslocar-se a este país com a regularidade que os projetos que tem na cabeça vão exigir. “Entendo que, como desportistas, também temos uma missão. Cada um pode e deve dar o seu contributo, seja de que forma for. É nisso que estou focada neste momento da minha vida e é esse o testemunho que quero dar.”

Fonte – http://www.surfportugal.pt/

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