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TERESA ABRAÇOS E UM REENCONTRO INESPERADO EM SÃO TOMÉ

dfgdfgEm 2009, Teresa Abraços, embaixadora da Plataforma Essência, deslocou-se pela primeira vez à ilha de São Tomé para a primeira de uma série de viagens que viria a organizar nos anos seguintes, no âmbito de um projeto (idealizado pela própria) de doação de material escolar a crianças de países do Terceiro Mundo. Fazendo-se acompanhar, na altura, pelos surfistas Alexandre Ferreira e Aécio Flávio e pelo fotógrafo da casa, Ricardo Bravo, a viagem ficou registada numa reportagem publicada na edição nº 199 da SURFPortugal, sob o título “Para Lá das Ondas”. Recentemente, a surfista da Poça regressou à ex-colónia portuguesa que se esconde sob a linha do Equador, com a supracitada edição da SP na bagagem, na esperança de reencontrar algumas das crianças que, há cinco anos, vira deslizar nas espumas de Santana sobre uns parcos troncos de madeira. E o que encontrou foi muito mais do que podia esperar.

Por Susana M. Santos

«São Tomé marcou-me imenso da primeira vez que lá fui», diz a ex-campeã nacional. «Achei o país lindíssimo, as pessoas super acolhedoras e a segurança extraordinária. Sentes-te mesmo à vontade na rua, seja de dia, seja de noite. As pessoas passam por ti e sorriem, dizem “bom dia”, “boa tarde”. Comecei a conhecer outros países em África mas nunca esqueci São Tomé. Fiquei sempre com a ideia de lá voltar”, sublinha Teresa Abraços.

Depois de entrar em contacto com Paulo Pichel, surfista do Guincho atualmente a viver e a trabalhar em São Tomé, Teresa tomou a decisão de regressar ao arquipélago que divide o mundo, não para uma nova ação de solidariedade, não para voltar a surfar as ondas são-tomenses — embora estas vontades estejam sempre presentes na surfista da Linha, em São Tomé ou em qualquer lugar — mas com o objetivo concreto de ir à procura das crianças que, há cinco anos, vira servirem-se de troncos de madeira para deslizar nas espumas de Santana, uma vila de pescadores localizada nos arredores da capital, tentando replicar os movimentos que a viam fazer nas ondas com a sua prancha de surf.

«Percebi que o Paulo dinamiza o surf em São Tomé, levando pranchas de cá para lá e oferecendo-as aos miúdos, e combinei tudo com ele. Levei a [edição da] SURFPortugal onde saiu a reportagem da viagem a São Tomé de há cinco anos e, no dia em que cheguei, fui passear à vila de Santana, onde tínhamos surfado em 2009 e onde tinha visto uns miúdos a fazer umas carreirinhas com pedaços de madeira. E de repente dei de caras com um rapaz que identifiquei imediatamente, e que por coincidência foi aquele que conhecemos melhor na altura. Mostrei-lhe a revista e ele fartou-se de rir a ver as fotos dos amigos de há cinco anos. Achei engraçado porque ele lembrava-se de tudo; falou-me do Xaninho, do Aécio, do Ricardo… Lembro-me que eles achavam que nós surfávamos imenso!» conta, entre risos.

Percebendo que o jovem, hoje já quase um adulto de 18 anos, se tinha transformado num surfista de corpo e alma, Teresa convidou-o a juntar-se a ela e ao marido, Pedro Quadros, companheiro de todas as viagens, numa sessão matinal marcada para o dia seguinte, ali mesmo em Santana. E a realidade com que, nessa manhã, se deparou excedeu todas as expetativas que pudessem ter sido criadas por aquele inesperado reencontro.

«Há cinco anos, não havia ninguém a surfar ali. Havia uns miúdos a apanhar carreirinhas e a tentar imitar-nos com umas tábuas, que eu até acho que eram os bancos das pirogas. Vimos dois surfistas no Sul mas ambos com um nível muito básico. E agora, passados cinco anos, chego lá e vejo para aí 15 adolescentes dentro de água, com pranchas de surf e uma pica descomunal. Eles estão sempre dentro de água; a água do mar é quente e têm bastantes ondas, mais até do que pensava. Podem não ser ondas com tamanho mas dá perfeitamente para surfar e evoluir. Eles já fazem as manobras todas, os cutbacks, as batidas, os aéreos… Tudo com um estilo meio estranho, por não haver muito contacto com a evolução de outros países, mas a paixão está lá», descreve Teresa, chamando a atenção para o aspeto menos positivo daquilo que já começa a ganhar contornos de uma comunidade de surf são-tomense. «O único senão é que eles não têm regras, ou seja, vem uma onda e vai tudo ao molho. Dropinam-se constantemente e as pranchas batem umas nas outras. Tivemos de explicar que se deve escolher as ondas, que há prioridades e que as pranchas custam dinheiro. (risos) E até foi curioso porque no último dia, quando voltámos a surfar com eles, deu para ver que já estavam a respeitar mais [a prioridade]».

Para não destoar das viagens anteriores, Teresa levou na bagagem “brindes” para oferecer aos jovens locais, desta vez peças de surf wear gentilmente cedidas pela Billabong Portugal e Ericeira Surf & Skate. Chamem-lhe karma instantâneo, chamem-lhe pura sorte, chamem-lhe o que quiserem, a verdade é que durante o resto da estadia o “casal Pica” do surf nacional pôde disfrutar de ondas de qualidade muito acima da média para a época, superando até as expetativas de quem lá vive e surfa regularmente.

«O Paulo e o Miguel, outro português que vive lá, fizeram matinais connosco quase todos os dias. Eles próprios disseram que há muito que não apanhavam ondas assim», observa Teresa. «A minha prioridade não era o surf, até porque a época de surf ali é durante o nosso Verão, e ainda por cima era a época das chuvas. Estava mentalizada para apanhar dias de calor e sempre flat e a chover. Levei a prancha naquele espírito de entrar [no mar] e dar umas remadas, se fosse preciso. Mas felizmente apanhámos ondulação e um glass incrível quase todos os dias. Aquele amanhecer sem vento… Às vezes até tinha dificuldade em distinguir as ondas porque o mar confundia-se com o céu. Foi uma bela surpresa», conclui.

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